Ferrovia do Riacho ou Trenzinho da Tristeza

A maioria dos moradores da zona sul de Porto Alegre não sabe que existiu um trem que vinha do centro até a zona sul, durante quarenta anos, essa ferrovia abriu espaço para o progresso e crescimento dessa parte da cidade, já que por muito tempo foi o único meio de transporte terrestre direto para o centro no início do século XX.

A zona sul não fazia parte do crescimento urbano de Porto Alegre, naquela época, devido aos obstáculos geográficos, o que foi mudado drasticamente com a implantação da ferrovia até a Ponta do Melo ou Ponta do Asseio, no início, o uso da ferrovia não contemplava os passageiros, mas sim era um recurso sanitário, já que nos trens eram trazidos os dejetos em cubos, para serem jogados ao Guaíba em área menos populosa.

A obra iniciou no ano de 1895, a princípio seriam 10km até o final da ferrovia, em outubro deste ano, os primeiros 6 km já estavam preparados e já haviam chegado a Porto Alegre duas locomotivas a vapor, importadas da Alemanha, de nomes “Progresso” e “Victória”, os trilhos vieram de Rio Grande, assim como nos dias atuais, problemas orçamentários, principalmente no que se refere as desapropriações dos terrenos ocupados pela ferrovia, atrasaram a inauguração que estava planejada para 1896. Finalmente em 13 de novembro de 1899, começou o transporte dos cubos sanitários até a Ponta do Melo.

A ferrovia foi estendida até o Arrabalde da Tristeza, e em 14 de janeiro de 1900, iniciou o transporte de passageiros, então, temos o percurso inicial, o trem saía da estação inicial, ao lado da Ponte de Pedra (Açorianos) na foz do riacho Dilúvio e o final da linha era na Estação Tristeza, onde hoje é a Praça Comendador Souza Gomes.

Em 1909 houve uma ampliação da ferrovia, em direção mais ao centro, para que a população tivesse acesso aos bondes, houve implantação de uma ponte de ferro, sobre o Riacho até a Rua Major Pantaleão Telles (atual Washington Luiz), veio da Antuérpia uma estrutura metálica para o reforço da ferrovia, o final da linha passou a ser a Estação Ildefonso Pinto, com sua cúpula arredondada, que lembrava uma igreja, nas esquinas das avenidas Borges de Medeiros com Mauá.

Já em 1910 foi aumentada em sentido sul 1500 metros de ferrovia, até a Praia da Ponta Grossa, nesta etapa havia um obstáculo a ser derrubado, abrir um cânon na rocha para a colocação dos trilhos, essa tarefa foi feita com a participação de Bazílio Pellin, um dos precursores da Tristeza, essa parte ficou pronta em 1912. Após foi construído um “girador” (plataforma para que o trem fizesse o retorno no fim da linha) e um recuo de 50 metros.

Trajeto Tristeza – Pedra Redonda (1916)

O ramal para o bairro Vila Nova foi construído em 1925, a linha entrava pela rua Cel. Massot até a Afonso Arinos, atravessava a Otto Niemayer com a Cavalhada e seguia por essa até aproximadamente a Rua João Vedana, nessa altura ia para o leste, em direção ao bairro Vila Nova, onde percorria um capo até encontrar a Rua João Salomoni, onde era o fim da linha, o trecho abrangia 4.400 metros, inaugurada em 1926 a Estação recebeu o nome de Vicente Monteggia.

A Ferrovia também serviu para o transporte das pedras de granito, exploradas na zona sul, até o centro da cidade, para construção de prédios modernos e pavimentação de ruas, bem como de frutas e verduras produzidas na região.

O trem levava cinquenta minutos do centro até a Pedra Redonda e contava com nove estações: Ildefonso Pinto, Riacho, Menino Deus, Asilo Padre Cacique, Cristal, Pedreira, Tristeza, Pedra Redonda e Vicente Monteggia.

Em janeiro de 1930, o Intendente (Prefeito) Alberto Bins, enviou ofício ao Presidente do Estado (governador) Getúlio Vargas, para que o Estado assumisse a ferrovia, visto a mesma não ter mais utilidade para o asseio público e o transporte público já operava com linhas de ônibus, mais baratas para os cidadãos. A ferrovia passou então para a administração da VFRGS – Viação Férrea do Rio Grande do Sul em 1933.

Em seu relatório financeiro no ano de 1936, a VFRGS informa que: “Os serviços nesta estrada ocorreram normalmente até 31 de março de 1936, data em que por conveniência da Viação Férrea, foi suspenso o tráfego nessa linha”.

Ainda houve um sopro de vida para a Ferrovia do Riacho, em 1935, quando houve incrementação de um novo ramal, desde a Estação da Vila Nova, para atender ao Matadouro Modelo, que foi inaugurado no bairro Serraria, a linha de carga foi entregue ao Matadouro em 12 de julho de 1939.

Após a enchente de 1941, a ferrovia ficou praticamente destruída e por fim foi desativada. Em 1944, instalou-se o quartel no lugar onde ficava o Matadouro Modelo.

Texto de Miriam Lima

Fontes: PELLIN, Roberto – Revelando a Tristeza volume 1 – 1979

HUYER, Andre. A Ferrovia do Riacho. Revisao 2011

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