DRA. NOEMI VALLE ROCHA – a primeira médica de Porto Alegre

Dra. Noemi Valle Rocha
Dra. Noemi, a única mulher na foto, ao lado do professor

Mais uma mulher de valor, além de seu tempo, hoje vamos falar da Dra. Noemi Valle Rocha, a primeira médica a atuar em Porto Alegre.

Nasceu em Porto Alegre a 24 de novembro de 1889, filha única de José Luiz Corrêa Vasques do Valle e de Cândida Pereira do Valle. Ficou órfã de pai muito cedo e passou a ser assistida pelo tio, Feliciano Pereira do Valle, fiscal do imposto do consumo e elemento decisivo na sua formação. Noemy cursou o Colégio Sevigné em Porto Alegre, notabilizando-se pelos seus dotes musicais e facilidade no estudo das línguas, porém, na época, o seu desejo de estudar Medicina encontrou forte oposição familiar. Ela se casou aos quinze anos de idade com um aluno da Escola Militar Augusto de Mendonça Rocha e logo aos dezessete, ficou viúva.

Noemi então começou a dar aulas particulares de português, francês, alemão, aritmética, álgebra, geometria, desenho linear e de paisagem e de violino, em sua residência, o que lhe garantia o sustento, mas ainda não havia abandonado o sonho de ser médica. Matriculou-se no primeiro ano do curso médico em 1912, e se tornou a segunda a mulher a cursar Medicina na UFRGS, atrás apenas de Alice Mäeffer – cuja trajetória, como médica, é desconhecida, se formou em 1917 e se tornou a primeira mulher a exercer efetivamente a profissão.

Claro que ela enfrentou muitas resistências e preconceitos, sejam expressos diretamente, sejam disfarçados em brincadeiras de mau gosto.

Passou a trabalhar em Clínica Geral, Ginecologia e Obstetrícia. Trabalhou ativamente durante a epidemia de Gripe Espanhola de 1918, tendo sido acometida pela gripe, mas felizmente se recuperado. Após fez viagens de estudo e compareceu a vários congressos. Fez parte, , por algum tempo, do corpo docente da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, na condição de assistente do Professor Pereira Filho, titular da cadeira de Microbiologia.

Trabalhou na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde atendeu na Enfermaria responsável pela Ginecologia e Obstetrícia, chegando a chefiar o Laboratório de Pesquisas da Maternidade.

Aliada à Federação pelo Progresso Feminino, foi sócia fundadora do Grêmio Anita Garibaldi, e preconizou a luta pela valorização do trabalho das mulheres e buscava novas oportunidades para que elas progredissem e se impusessem pelo seu conhecimento e pelo seu trabalho. Escreveu contos e crônicas na imprensa. Concedeu importantes entrevistas ao Correio do Povo e ao Diário de Notícias, onde discorria sobre a socialização da Medicina, o sufrágio feminino, o ensino religioso nas escolas e o cinema nacional. Manteve acaloradas e polêmicas discussões com os senhores Egídio Itaqui e Teodomiro Tostes, na defesa do feminismo.

Foi das primeiras mulheres a dirigir automóvel no Rio Grande do Sul e a sua carteira de motorista era a de número vinte e sete.

Dedicou-se a literatura escrevendo sobre ficção e folclore do Rio Grande do Sul, esse assunto passou a ser a sua nova paixão e firmou-se como grande conhecedora do linguajar e dos costumes das diferentes populações do Estado.

Sua produção literária inclui um livro de contos em 1948, intitulado Reflexos d’Alma. Conferencista consagrada, deixou coletânea de discursos acadêmicos no livro Quatro Perfis Literários. Ficaram ainda como de sua autoria: Conceitos gerais sobre folclore (1953), A fraude no imposto de consumo, O sufrágio feminino, na imprensa de Porto Alegre; O beija-flor, crônica, Almanaque do Correio do Povo, Porto Alegre, 1968; Higiene escolar, tese no Primeiro Congresso de professores Primários do RS, Porto Alegre, 1930; Vida e obra da Professora Jenny Seabra de Souza, conferência na Associação dos Amigos do Terceiro Distrito, P. Alegre, 14 de dezembro de 1968. Participou da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, tendo ingressado na instituição em 1948 e foi Presidente em dois mandatos, o primeiro no biênio 1955-1956 e o segundo em 1957 e 1958. Desenvolveu intenso programa de intercâmbio cultural com os países do Prata e com outros Estados da Federação.

Noemi espalhava nossa cultura através da revista Atenéia, periódico pertencente a Academia Literária, e também através de programas semanais de rádio em emissoras de Bagé, de Uruguaiana e de Santiago, que passaram a transmitir o programa Sempre Mais Acima, Sempre Mais Além, título-lema da revista trimestral da Academia.

Recebeu os prêmios e distinções: membro de honra da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul; ocupante da cadeira 11 da Academia Sul-Brasileira de Letras, sediada em Pelotas, passando a ser patrona da cadeira 45 após reformulação da Academia.

Ela teve uma filha de criação e deixou em herança para a Academia Literária Feminina sua residência assobradada, que se transformou na sede da Academia, à Rua Sarmento Leite, 933. 

Noemi faleceu na cidade de São Leopoldo, no dia 01 de outubro de 1978.

A rua que leva seu nome fica no Bairro Serraria, sob a Lei N° 4770 de 29 de agosto de 1980.

Texto de Miriam Lima

Fontes:SPINELI, Teniza (Org.) Casa de Noemy Valle Rocha: História e Memória da ALFRS. Porto Alegre: Vidráguas, 2017. Revista Máscara, n.39, Ano I, 9 de Nov. 1918. LAITANO, Genaro; LAITANO, Nicolau; Ruas de Porto Alegre: MÉDICOS HOMENAGEADOS com seus nomes. Porto Alegre: EST Edições, 2017. p. 250-252.

Imagem: simers.org.br

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